Notícias | 26 junho, 2026

Indústria naval baiana vive nova onda de encomendas

Estaleiros da Bahia acumulam contratos de rebocadores, embarcações offshore e barcaças

Por Geraldo Bastos

A indústria naval baiana atravessa um de seus momentos mais promissores em décadas. Impulsionados pela forte retomada do mercado de petróleo e gás, com a Petrobras no centro das encomendas, estaleiros de diferentes portes acumulam contratos, ampliam infraestrutura e correm contra o relógio para dar conta de uma carteira que não para de crescer. O cenário foi o tema central da plenária “Perspectivas dos terminais de GNL, portos e estaleiros”, realizada nesta sexta-feira durante o Bahia Oil & Gas Energy, no Centro de Convenções Salvador.

A baiana Belov é, à primeira vista, uma empresa de mergulho e obras portuárias. Mas nos últimos anos transformou-se em um dos estaleiros mais inovadores do Brasil, quase por acidente. Juracy Vilas-Bôas, diretor da empresa, contou que tudo começou quando a Belov ganhou uma licitação para fornecer à Petrobras um barco de mergulho com posicionamento dinâmico e propulsão por hidrojet. Tecnologia que, à época, nenhum estaleiro brasileiro havia dominado.

“Procuramos estaleiros no Brasil que tivessem capacidade técnica e prazo. Os pequenos não entregariam no prazo, os grandes também não, e nenhum tinha experiência com esse tipo de embarcação”, recordou Vilas-Bôas. A solução foi fazer o barco em casa e fazê-lo melhor do que o especificado: diesel elétrico com posicionamento dinâmico e propulsão hidrojet, uma combinação inédita no mundo. Em 2020, a embarcação ganhou dois prêmios internacionais como o melhor barco do mundo em sua categoria.

Desde então, a Belov não parou. Construiu para a Hidrovias do Brasil o primeiro empurrador híbrido do mundo. Uma embarcação capaz de rodar com gerador diesel, motor elétrico e banco de baterias, hoje em operação no Pará. Converteu um navio em draga, hoje trabalhando na Baía de Todos-os- Santos. E adquiriu na China um PSV 4500, convertendo-o no segundo OTSV (Offshore Terminal Support Vessel) da frota da Petrobras e o único de bandeira brasileira.

Agora, a empresa fecha contratos num ritmo que exige expansão física imediata. Um contrato recente, cujo cliente ainda não pode ser divulgado formalmente, prevê a construção de quatro rebocadores no estaleiro da Bahia, com possibilidade de chegar a oito. “Demos prazo de 18 meses. O concorrente mais próximo propôs um ano a mais. Não por ser menos eficiente, mas porque estava com a carteira 100% cheia”, explicou Vilas-Bôas.

Para sustentar esse ritmo, a Belov investe na modernização do estaleiro, localizado na Baía de Aratu, com uma nova linha de produção em construção. A empresa também inaugura uma área dedicada ao descomissionamento e desmantelamento de plataformas, de olho nos US$ 10 bilhões previstos no plano de negócios da Petrobras para esse segmento até 2030.

Enseada mira escala

Se a Belov representa a agilidade tecnológica dos estaleiros médios, a Enseada encarna a escala. Localizado no município de Maragogipe, na Bahia, o estaleiro de 1,6 milhão de metros quadrados foi construído para ser referência na construção de plataformas de petróleo. A planta nasceu com tecnologia japonesa da Kawasaki, numa aposta de mais de US$ 1 bilhão em equipamentos de última geração.

“O japonês é 10 vezes mais produtivo que o estaleiro chinês. Quando vieram para o Brasil, trouxeram o que tinham de melhor”, recorda Mario Moura, diretor de Operações do Enseada. A vocação original da Enseada era construir um FPSO por ano — navios-plataformas que chegam a valer US$ 2,2 bilhões por unidade. Mas o mercado reservou uma surpresa: nos últimos quatro anos, foi a explosão do agronegócio no Arco Norte que aqueceu os negócios.

A LHG Mining, do grupo JTF, precisava de uma solução logística para escoar produção mineral por 2.500 quilômetros no Rio Paraguai e apostou no modelo de empurradores e barcaças já consolidado nos Estados Unidos. O resultado é o maior projeto de logística fluvial do Brasil – até R$ 10 bilhões em investimentos -, com centenas de barcaças saindo da Enseada. Só a LHG tem aprovação no Fundo da Marinha Mercante para 400 barcaças e 15 empurradores.

O estaleiro também ocupa posição estratégica na corrida pelas novas embarcações de apoio offshore licitadas pela Petrobras após dez anos de paralisação: são 33 novas embarcações contratadas ou em processo de contratação, todas com obrigação contratual de operar no futuro com metanol e etanol. “A Petrobras não está comprando embarcações, está comprando serviços. Mas ela obrigou que essas embarcações rodassem com esses combustíveis. Isso é o papel de uma empresa como ela: fomentar”, avaliou Moura.

Eneva construirá mais dois terminais de GNL

Quem pensa que o debate sobre gás natural se limita aos estaleiros se engana. Nathália Almeida, gerente do Terminal de GNL da Eneva no Hub Sergipe, apresentou uma estratégia de expansão que vai remodelar o mapa energético do país.

Com base no resultado expressivo do leilão LRCap, que contratou 15,2 gigawatts em usinas termelétricas a gás, dos quais 4,4 GW foram conquistados pela Eneva, a empresa tomou uma decisão estratégica: construir dois novos terminais de GNL além do Hub Sergipe, já em operação há seis anos. O primeiro será no Porto do Pecém, no Ceará, já em obras, com capacidade de regaseificação de 14 milhões de metros cúbicos por dia. O segundo, chamado de Hub Sudeste, será no Espírito Santo ou no Rio de Janeiro, com 21 milhões de metros cúbicos diários — a mesma capacidade do Hub Sergipe.

Juntos, os três terminais somarão 56 milhões de metros cúbicos de regaseificação por dia. A Eneva aumenta sua capacidade térmica em 56% e se torna, de fato, a maior operadora termoelétrica do Brasil. “Redundância e flexibilidade são as principais palavras da nossa estratégia”, sintetizou Nathália. Hub Sergipe e Hub Sudeste, ambos conectados à malha de gás, funcionarão como clusters, ou seja, um pode suprir o outro em caso de manutenção ou interrupção, enquanto ambos alimentam indústrias e usinas em outros estados.

O modelo de negócio da Eneva, batizado de “gas-to-power”, vai além da simples regaseificação: inclui revenda de gás para a malha, cabotagem em escala reduzida (small scale), estocagem estratégica e até exportação em momentos de crise de mercado. “Um terminal bem gerenciado tem várias oportunidades de negócio. Não é só ter a molécula disponível a preço acessível — há toda uma logística e um capex envolvidos”, ponderou a executiva.

FONTE: BRASIL ENERGIA