Notícias | 19 junho, 2026
Demora na Margem pode impactar investimentos futuros
A Margem Equatorial, para o Brasil, se mostra como uma das respostas para evitar o rápido declínio da produção nos meados da década de 2030. Contudo, há incertezas do ponto de vista regulatório, ambiental e até do ramp-up que limitam projeções mais centrais sobre o futuro, bem como dificultam a fronteira da decisão de investimentos.
À Brasil Energia, o vice-presidente de mercados de óleo da Rystad Energy, Raphael Faucz, explicou que a falta de previsibilidade nos projetos atrapalha os investimentos. “Não sei o quanto que eu vou precisar investir ou se eu vou poder investir e quanto que vai ser isso ao longo dos próximos anos. Esse é um problema ou algo necessário a ser discutido na sociedade civil de uma forma bastante clara”, destacou Faucz.
As falas foram feitas na 4ª edição do Rio Energy Forum, um evento sediado pela Rystad Energy na cidade do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (17).
O executivo também destacou que caso não ocorra o desenvolvimento da Margem e uma recuperação de poços mais rápido, há chances de em meados de 2040, ou antes, o país voltar a ser importador, um cenário que “não é coerente com todos os potenciais que o Brasil tem”. Segundo ele, alguns modelos preditivos da Rystad Energy consideram que se não fossem os biocombustíveis, o Brasil seria importador no final dos anos 2030.
Na avaliação de Faucz, apesar dos desafios institucionais e regulatórios, o Brasil ainda é uma região estável em comparação com Guiana, Venezuela e até países do Oriente Médio. E os barris que vêm de regiões confiáveis tem um valor adicional chamado de prêmio de confiabilidade, que aumenta, por exemplo, a forma de tomada de decisão de investimentos.
Pode ser para a Margem Equatorial, para a revitalização de poços ou outros projetos que venham a ter break-evens elevados ou desafiadores, segundo sua avaliação. Mas isso em um cenário em que os barris confiáveis serão necessários nos próximos 20 ou 30 anos.
“Existem barris que serão necessários, principalmente em novas descobertas e revitalização de poços, para manutenção dessa demanda que de fato estará lá”, destacou o VP de mercado de óleo.
Cadeia de fornecedores também pode sentir reflexos
A Petrobras adquiriu o bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, em 2013 e somente iniciou a perfuração do poço Morpho em outubro de 2025. A diferença de 12 anos entre a aquisição e a perfuração mais os prováveis desafios do desenvolvimento podem trazer questionamentos à cadeia de fornecedores sobre investimentos, disse Thais Vachala, vice-presidente de Supply Chain da Rystad Energy.
Vachala levanta algumas indagações, como quantos desafios podem existir para o desenvolvimento; se vão ter aprovação das licenças ambientais mais rápido e de forma mais simples – incluso as de perfuração, instalação da unidade e início de produção. E caso tenha uma descoberta significativa, as empresas fornecedoras vão ficar de olho.
A questão em um próximo momento seria de adaptação, apontou a VP, porque não há infraestrutura na região para as subsequentes atividades.
Atualmente, Vachala destaca que o mercado de fornecimento enfrenta um outro dilema: sobrecarga de demanda. O fechamento do Estreito de Ormuz impactou os preços do Brent e, consequentemente, impactou a cadeia. Isso afetou o preço dos combustíveis e auxiliou no aumento da inflação.
De acordo com a executiva, a previsão é que em 2026 e 2027 a inflação fique em torno de 10,3%. Para explicar a situação de incerteza causada pelo Estreito, Vachala utiliza como exemplo a cadeia de FPSO. A unidade de produção que vai atuar no projeto de Sea Lions foi realocada de um estaleiro nos Emirados Árabes Unidos para ser remodelada em um estaleiro asiático.
Segundo ela, isso aumenta a incerteza em um dos fornecedores e a demanda dos estaleiros da Ásia. “Você sobrecarrega o mercado que já estava sobrecarregado”, explicou Vachala.
Além disso, ela assinala que no caso do Brasil, mesmo que alguns módulos de FPSO já são esperados para serem fabricados em estaleiros brasileiros, o casco e outros módulos específicos ainda precisam ser feitos em estaleiros na Ásia. A questão é conseguir um espaço para a construção mediante a competição de outros projetos globais.