Notícias | 2 outubro, 2026

Nova cadeia offshore abre disputa por investimentos no Nordeste

Retirada de 39 plataformas fixas movimentará US$ 2,5 bilhões e cria demanda por logística, engenharia, apoio marítimo e destinação de materiais

O Nordeste está entrando em uma nova fase da indústria de petróleo. Somente a Petrobras prepara o descomissionamento de 39 plataformas fixas instaladas em águas rasas nas bacias de Sergipe-Alagoas, Potiguar e Ceará, em um processo estimado em US$ 2,5 bilhões. São 26 unidades em Sergipe, nove no Ceará e quatro na Bacia Potiguar. A campanha envolve centenas de poços, dezenas de milhares de toneladas de aço, dutos e uma extensa cadeia de serviços especializados.

O volume de recursos, no entanto, não significa que todo o valor econômico ficará nos estados onde as plataformas estão instaladas. Ao contrário de uma obra convencional, o descomissionamento offshore permite que embarcações, bases logísticas, equipamentos e até as próprias estruturas retiradas do mar sejam direcionados para diferentes pontos da costa. Para Sergipe, que concentra dois terços das unidades previstas no programa, a disputa é fazer com que uma parcela relevante desse dinheiro seja desembarcada no estado.

A questão ganha peso porque as 39 unidades são plataformas fixas. O processo é mais complexo do que a retirada de uma instalação flutuante. Primeiro é preciso abandonar e tamponar os poços, executar o arrasamento quando previsto, retirar equipamentos e topsides e, só então, cortar e remover a jaqueta – a estrutura metálica cravada no leito marinho que sustenta a plataforma.

Isso mobiliza sondas, embarcações de apoio, balsas, equipes subaquáticas, engenharia, transporte e uma estrutura terrestre capaz de receber, desmontar, descontaminar, separar e dar destino aos materiais. O descomissionamento, portanto, começa muito antes de uma plataforma aparecer no cais.

Sergipe no centro da disputa

A maior parte das unidades já não produz. Em Sergipe, as 26 plataformas foram hibernadas em 2020, quando a Petrobras interrompeu a produção em águas rasas. Foi o fim de um ciclo iniciado décadas antes e que ajudou a formar uma cadeia de fornecedores, empregos e serviços em torno da atividade petrolífera no estado.

No Rio Grande do Norte e no Ceará, a equação é diferente. Parte dos ativos passou para a Brava Energia. Em vez de acelerar a retirada das estruturas, a estratégia é avaliar a possibilidade de reativar campos e prolongar sua produção.

É justamente aí que entra uma das mudanças regulatórias importantes para os campos maduros. O Modelo de Provisionamento Progressivo (MAP), criado pela Resolução ANP nº 854/2021, permite que uma cessionária independente constitua progressivamente as garantias financeiras necessárias à desativação do ativo, em vez de imobilizar de imediato todo o valor estimado para o descomissionamento.

Com mais de 2 milhões de m² e área alfandegada, o terminal TMIB, em Sergipe, poderia ser utilizado para estocagem e triagem de equipamentos retirados do mar (Foto: Divulgação/VLI)

Na prática, o mecanismo reduz a pressão financeira sobre o operador no momento da aquisição e preserva recursos para investimentos capazes de recuperar produção. O descomissionamento continua sendo uma obrigação, mas pode ser deslocado para uma etapa posterior caso o campo ainda tenha viabilidade técnica e econômica.

É uma diferença fundamental para entender o Nordeste. De um lado, há ativos que chegaram ao fim da vida produtiva e precisam ser retirados. De outro, existem campos antigos que ainda podem gerar caixa se receberem investimentos. A idade da plataforma, portanto, não determina sozinha a hora de desmontá-la.

A oportunidade sergipana

Em Sergipe, a situação é mais definida. A Petrobras prevê concluir a chamada prontidão das 26 plataformas até o próximo ano e retirar as estruturas até 2035. Também estão previstos 169 abandonos permanentes de poços até 2031.

Os campos que serão totalmente descomissionados no mar na próxima década incluem Camorim, Dourado, Caioba, Guaricema e Piranema. Ao todo, são 20.464 toneladas de aço e mais de 300 quilômetros de dutos rígidos. Só a limpeza de 56 quilômetros de dutos já foi concluída.

A escala explica por que o governo sergipano tenta transformar o encerramento de uma atividade em uma nova frente de negócios.

“O petróleo e gás foram muito importantes para Sergipe”, resume o secretário do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia de Sergipe, Valmor Barbosa (foto). O problema agora é evitar que o dinheiro gerado pela nova etapa da indústria simplesmente atravesse a fronteira estadual.

Sergipe não possui uma estrutura industrial comparável à da Bahia ou do Ceará. Por isso, a estratégia passa por criar condições para atrair bases de apoio náutico e terrestre, áreas de armazenamento e empresas de serviços.

Uma das ferramentas utilizadas pelo governo é o Programa Sergipano de Desenvolvimento Industrial (PSDI), que prevê apoio locacional em terrenos e galpões e diferimento de ICMS. De acordo com Barbosa, cumpridas as condicionantes, os incentivos podem reduzir entre 92% e 93,8% o imposto devido pelas empresas que se instalam no estado.

O governo também negocia com grupos do Rio de Janeiro a instalação de estruturas de apoio próximas a Barra dos Coqueiros. Uma das referências citadas pelo secretário é uma base já instalada em São Gonçalo.

Outra alternativa em estudo é o Terminal Marítimo Inácio Barbosa (TMIB), administrado pela VLI. Com mais de 2 milhões de m² e área alfandegada, o terminal poderia ser utilizado para estocagem e triagem de equipamentos retirados do mar.

“Quanto mais próximo você tiver da terra para levar essas estruturas, uma estrutura que você consiga também tirar a maior quantidade de tonelagem possível para reduzir o tempo de mar, mais competitivo você vai ser”, explica Eduardo Aragon (foto), consultor e executivo da Brainmarket Consultoria de Negócios, especializado em descomissionamento de plataformas fixas.

Aragon tem uma referência que ajuda a dimensionar o potencial desse mercado. Em parceria com uma empresa americana que atua no Golfo do México, acompanha um mercado em que são descomissionadas, em média, cerca de 40 unidades por ano.

O gargalo pode estar em terra

A plataforma retirada do mar precisa chegar a uma área terrestre que tenha calado, acesso, capacidade de atracação, área para movimentação e instalações adequadas para desmontagem e descontaminação.

É nesse ponto que aparece um dos principais gargalos de Sergipe.

Fredric Fuerth (foto), diretor-presidente da Sulnorte Serviços Marítimos, vê potencial no Estaleiro Santa Cruz, em Barra dos Coqueiros, mas aponta o calado como uma limitação para a operação. A empresa avalia investimentos e possíveis parcerias, mas depende de condições que permitam a entrada e a movimentação das embarcações.

Segundo Fuerth, o capital necessário para reativar a operação não seria o principal obstáculo diante do potencial de receita. O problema está na infraestrutura pública necessária para tornar o acesso operacional.

O gargalo é relevante porque a competição não ocorre apenas entre empresas. Ocorre também entre estados. Uma plataforma pode estar a poucos quilômetros da costa sergipana e, ainda assim, ser levada para uma base na Bahia ou em outro estado se houver melhores condições de acesso, calado, preço ou área disponível.

O mercado começa antes da retirada

Em Sergipe, a Petrobras já concluiu a limpeza de 56 quilômetros de dutos e prevê 169 abandonos permanentes de poços. São atividades que demandam sondas, serviços de intervenção, apoio marítimo, engenharia e mão de obra especializada.

Há também uma frente de trabalho concreta no mar. A plataforma autoelevatória PA-38, com pernas de quase 150 metros, opera no campo de Guaricema em uma campanha de abandono e tamponamento de poços. A previsão inicial é de sete meses de operação antes do deslocamento para outras locações.

Aragon acredita que a etapa mais visível do programa – a retirada física das estruturas – pode começar já no próximo ano. O movimento em curso nas operações de abandono de poços seria um dos sinais de que a campanha já entrou em uma fase operacional.

A pressão de custos ajuda a explicar a estratégia. Balsas de transporte, embarcações de mergulho e unidades de acomodação têm diárias elevadas. Quanto maior o volume transportado por viagem e menor o tempo gasto no mar, melhor a economia do projeto.

Mão de obra entra na conta

A tentativa de Sergipe de capturar parte dessa cadeia também passa pela formação de trabalhadores. O governo mantém um programa que subsidia durante seis meses bolsas para jovens em empresas do setor, com a contrapartida de que até 30% dos participantes possam ser absorvidos pelas próprias empresas ao final do período.

A intenção é criar mão de obra local para uma atividade que exige competências específicas e evitar que os contratos sejam executados predominantemente por equipes deslocadas de outros estados.

Estaleiro Belov, na Bahia: em consórcio com a Braserv, empresa fechou contrato com a Petrobras para o abandono permanente de poços marítimos e descomissionamento completo das jaquetas do Campo de Itaparica (Foto: Divulgação/Belov)

O secretário Valmor Barbosa estima em cerca de 20 mil o número de empregos diretos e indiretos que podem ser associados ao descomissionamento em Sergipe. Trata-se de uma projeção de impacto ao longo da campanha, e não de postos simultaneamente ocupados durante todo o período.

A diferença é importante. O programa não será executado de uma vez. As campanhas serão distribuídas no tempo e envolverão diferentes especialidades, fornecedores e níveis de contratação.

Bahia já testa esse mercado

A Bahia oferece um exemplo concreto de como essa nova cadeia começa a se formar no Nordeste. A Belov Engenharia, em consórcio com a Braserv, fechou neste ano contrato com a Petrobras para o abandono permanente de poços marítimos e o descomissionamento completo das jaquetas do Campo de Itaparica, na Baía de Todos-os-Santos, a cerca de 24 quilômetros a oeste de Salvador, na Bacia do Recôncavo.

O projeto envolve seis poços, prazo de 360 dias corridos e mobilização prevista em até 180 dias. Por estar em uma área de proteção ambiental, a operação está sujeita a exigências específicas de conformidade ambiental.

O Grupo Belov já acumula experiência em operações semelhantes, incluindo o desmonte de dois navios convertidos em duas balsas e uma draga, com o aço excedente destinado à reciclagem, além de projetos na região de Madre de Deus.

Fonte: Brasil Energia