Notícias | 9 abril, 2026

Eólicas offshore atrairão investimentos para indústria e sistema portuário, avaliam agentes

Eólicas offshore atrairão investimentos para indústria e sistema portuário, avaliam agentes

Participantes de audiência pública no Senado alertaram que, para começar a produzir nessas instalações, daqui a oito ou 10 anos, é preciso iniciar logo cessão de áreas, para que sejam estudadas condições das regiões de oceano, a fim de planejar e desenvolver esses projetos

A produção de energia eólica em usinas offshore no Brasil vai atrair investimentos, gerar milhares de empregos, beneficiar vários segmentos da indústria, incluindo a siderúrgica e a naval, e levar à modernização e ampliação do sistema portuário do Brasil, sem necessidade de grandes recursos públicos. A avaliação é de representantes de diferentes segmentos envolvidos com a exploração de energias alternativas e do governo que participaram nesta terça-feira (7) de audiência pública na Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado.

A reunião foi convocada pelo senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) para debater a regulamentação da Lei 15.097/2025, que trata do aproveitamento de potencial energético offshore, e teve como objetivo recolher subsídios para embasar a definição de normas para regular o setor, que ainda não é explorado no país.

Uma das mais enfáticas em defender os benefícios da exploração da energia eólica no mar brasileiro foi a diretora de políticas para o Brasil no Conselho Global de Energia Eólica (GWEC) e membro da recém-criada Coalizão Eólica Marinha (CEM), Roberta Cox. Ela ressaltou que o cenário global, diante da necessidade de transição energética e de geração de energias limpas e menos agressivas, é amplamente favorável ao setor e que o país é um dos que mais podem ser beneficiados e atrair investimentos. “Temos muitos interessados, nacionais e estrangeiros, em investir em energia eólica no Brasil”, garantiu.

Ela listou entre os fatores que favorecem o Brasil, além da existência de ventos perenes em praticamente toda a costa brasileira e de mar mais tranquilo que em outras áreas do planeta, o domínio que o país tem em exploração de estruturas offshore decorrente de anos de investimentos em estruturas para exploração de óleo e gás em plataformas marítimas. “O Brasil tem engenharia muito desenvolvida em exploração de recursos no mar, e a eólica é menos complexa do que o país já explora no mar”, assegurou.

Roberta Cox avaliou como positivas tanto a proposta de lei para regular o setor quanto as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para garantir segurança jurídica para os que desejarem investir em eólica offshore, que demanda recursos volumosos e pesquisas detalhadas para definir as áreas apropriadas para instalar as usinas de produção de energia no mar. Mas ressaltou que, para começar a produzir daqui a oito ou 10 anos, é preciso iniciar logo a cessão de áreas para que sejam estudadas as condições das regiões de oceano para planejar e desenvolver os projetos.

Ela informou que o uso da energia eólica, por ser alternativa eficiente para a transição energética, tem crescido em várias partes do mundo, o que, na sua avaliação, a médio prazo, vai reduzir os custos de instalação e de produção. Além disso, previu que o início da exploração em estruturas offshore no Brasil vai representar um salto para a indústria brasileira, inclusive a naval, na fabricação das estruturas necessárias para as usinas. “O Brasil ainda não fabrica os componentes porque ainda não tem eólica offshore”, avaliou.

A expectativa dos agentes e especialistas que participam da audiência pública é que a exploração da energia gerada pelos ventos terá impacto positivo também no sistema portuário brasileiro, já que, por serem estruturas de grandes dimensões e pesos, os equipamentos usados nas usinas offshores não podem ser transportados por caminhões por estradas, o que demandará sua fabricação em áreas próximas ou dentro de espaços de portos.

O diretor do Programa de políticas setoriais, planejamento e inovação, da Secretaria-Executiva do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), Tetsuo Koike, informou que, diante dessa perspectiva, já há planejamento para atender a demanda que será gerada para a movimentação das peças. “O sistema portuário já está estudando o uso da energia eólica”, garantiu Koike.

Segundo o representante do MPor, o país já tem um sistema preparado para atender as demandas, incluindo o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), criado para apoiar segmento ligados à produção de energias limpas e gerido pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Koike disse ainda acreditar que uma das tendências será a opção pelo modelo de complexos industriais portuários, com as fábricas ocupando áreas dentro do espaço dos portos.

Ele citou ainda que a expectativa é de que haverá impactos também na indústria naval e na navegação do país, com a necessidades de produzir e usar embarcações específicas para o transporte dos equipamentos e de apoio marítimo voltadas para as estruturas eólicas offshore, com características diferentes das usadas no atendimento a plataforma de produção de óleo e de gás. Koike explicou que é preciso investir desde já nesses segmentos para que o país e as empresas estejam preparados para atender ao que será demandado. “Se a energia eólica offshore será produzida daqui a oito ou 10 anos, o momento de planejar é agora. Temos que planejar o futuro da indústria naval e do apoio marítimo”, considerou.

Outro que foi enfático na defesa da exploração de energia eólica offshore foi o diretor de novos negócios da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), Marcello Cabral. Ele enfatizou que o potencial de gerar energia em estruturas marítimas é muito maior que a das usinas em terra e que cada turbina offshore pode gerar cinco vezes a quantidade de energia da de uma terrestre. “Quando falamos em exploração offshore, estamos falando de uma possibilidade maior que a onshore”, disse.

Cabral também ressaltou o impacto positivo que esse modelo de exploração terá sobre a indústria brasileira, lembrando que, apesar da experiência exitosa do Brasil em exploração de petróleo e gás no mar, não serão usados os mesmos tipos de equipamentos e que será necessário produzir os específicos para as eólicas. “Teremos que desenvolver uma nova indústria”, assegurou.

Ele previu que a exploração de energia a partir do vento em estruturas no mar dará ao país a possibilidade de criar indústrias, gerar milhares de empregos, modernizar os portos e colocar o Brasil na dianteira da transição energética. Por isso, defendeu a aprovação da lei que regulamenta o setor e as diretrizes definidas pelo CNPE como fatores de atração de investimentos. “É preciso uma regulamentação que garanta a previsibilidade e a segurança jurídica”, disse Cabral.

O diretor da ABEEólica explicou ainda que outra vantagem da lei proposta para o setor é não prever subsídios para os empreendimentos. Segundo ele, o modelo garante a segurança jurídica para os investidores, que serão os responsáveis pelo aporte de recursos para as pesquisas de avaliação e por decidir se vale a pena produzir. “A lei não prevê nenhum centavo de incentivo. O contribuinte não vai pagar nada”, comentou Cabral.

O mesmo ponto foi ressaltado por Roberta Cox, do Conselho Global de Energia Eólica e da Coalizão Eólica Marinha, que explicou que os investidores têm interesse em entrar no setor de produção de energia eólico offshore mesmo sem expectativa de receber subsídios do governo. “Quem vai arcar com os custos da implantação é o empreendedor”, afirmou.

A definição de áreas onde poderão ser instaladas as usinas para a exploração das usinas eólicas precisará passar pela avaliação da Marinha do Brasil, que é a agência reguladora de todas as atividades marinhas no mar territorial brasileiro, como explicou o almirante de esquadra Sílvio Luís dos Santos, diretor-geral de Navegação da força naval. Por isso, ele destacou a importância da realização do Planejamento Especial Marinho (PEM), que está sendo feito para identificar os pontos onde será permitido instalar as estruturas.

O oficial explicou que a exploração de energia e a instalação de prismas não pode ser feita em rotas marinhas, nas consideradas de seguranças ou onde prejudiquem o trabalho portuário, incluindo a movimentação dos navios para atracação e desatracação. Além disso, informou que é preciso avaliar se o campo eletromagnético gerado pelas usinas pode influenciar na operação de sistemas de navegação e de comunicação de embarcações, o que poderia causar acidentes. “O planejamento e o equilíbrio nas decisões são fundamentais para garantir a exploração com segurança”, explicou Santos.

Fonte: Portos e Navios